Naquela noite, aquilo voltou a pesar sobre Patrick.
Nas últimas duas semanas, ele só trabalhou. Nem ele mesmo sabia se era porque gostava tanto daquilo ou porque não tinha mais nada para fazer. A segunda opção era muito verdadeira. Acabou convencendo a si mesmo da primeira. Tinha se acostumado. E assim, mergulhado no trabalho, saía de casa apenas para comprar comida. Mas até isso o incomodava, pois também tinha se tornado algo banal.
Para quebrar aquela rotina irritante de alguma forma, deixou de fazer compras duas vezes, adiou o almoço três vezes e certa vez decidiu até passar fome. Preparou apenas uma salsicha e, à noite, compensou com paçoca. Justificava tudo dizendo que tinha muito trabalho que precisava terminar com urgência.
Mas aquela era exatamente uma daquelas noites em que, para ele, já tinha esgotado todas as formas de fugir da rotina. Ou de si mesmo. E então voltou aquele velho pensamento:
Se eu tivesse ao menos alguns amigos. Ao menos uma única pessoa com quem eu pudesse conversar agora. Seria bom. Eu desabafaria. Esqueceria por um momento. Mas eu não tenho ninguém.
Às vezes ele chegava até a pensar que, se morresse, só a mãe perceberia.
Agora andava de um lado para o outro no quarto, pensando no que fazer. Já passava das dez da noite. Tinha começado a pensar nisso por volta das cinco da tarde, mas ainda conseguira interromper os pensamentos com uma última tarefa rápida.
Pelo menos vai até a praia. Para de ficar trancado dentro de casa.
Finalmente saiu.
Ventava, e ele tinha medo de que voltasse a chover. Na verdade, talvez a culpa de tudo fosse do tempo. Havia uma semana que o sol não aparecia. Se o clima estivesse melhor, certamente teria encontrado coragem para fazer alguma coisa.
Foi então que avistou um rapaz que já o tinha visto primeiro. O homem quase parou, por acaso ao lado de uma placa com o nome da rua, como se quisesse se esconder atrás dela, mas não tirou os olhos de Patrick. Disse alguma coisa. Parecia assustado.
— Senhor, por favor, o senhor não teria dez reais?
— O quê? — perguntou Patrick, notando as calças e a camiseta sujas do homem. Na mão, segurava, quase apertando contra si, um capacete de obra. Devia ter acabado de sair do trabalho.
— Dez reais. Me roubaram — disse o homem, acrescentando mais alguma coisa. Mas Patrick já não entendia. Era estrangeiro.
— Desculpe — disse ele. — Não tenho dinheiro comigo.
Patrick começou a andar e ainda olhou para trás. O homem era bem jovem. Quase pareceu choramingar enquanto olhava ao redor, sem saber para onde ir nem o que fazer.
Patrick continuou andando.
Mas aquele cara parecia realmente precisar de ajuda…
É terrível. As pessoas já não ajudam ninguém…
Mas quem sabe quem é? Afinal, não dá pra confiar em ninguém nesse mundo…
Patrick caminhou quase até a água. As ondas tinham levado tanta areia que se formara uma barreira de cerca de meio metro de altura. Sentou-se nela. As pernas ficaram balançando no ar e, enquanto preparava uma playlist no celular, também observava as ondas. De vez em quando, uma chegava alto demais.
Naquela noite, as músicas seriam mais melancólicas. Ele já se imaginava sentindo pena de si mesmo outra vez. Mas, por algum motivo, via certa beleza nisso. Talvez porque sempre acabasse se reconciliando com a própria situação por algum tempo. Sabia que tinha de ser assim.
Já tinha o fone direito no ouvido. Estava colocando o esquerdo quando o mesmo homem que o abordara antes se aproximou cautelosamente por um lado.
— Senhor… — começou ele, juntando as mãos e dizendo mais alguma coisa. Talvez, se não estivesse ventando tanto, Patrick tivesse entendido.
— Escuta! — retrucou Patrick. — Eu não menti pra você. Eu disse que não tenho nenhum— O homem fez uma careta e escondeu o rosto nas mãos. —mas eu vou para casa e vou te dar o dinheiro — disse Patrick ao vê-lo daquele jeito, já se levantando.
— Quanto você precisa? Dez reais?
— Sim. Dez reais.
— E o que aconteceu?
— Me roubaram. Roubaram.
Novamente ele escondeu o rosto nas mãos e começou a chorar.
— Calma — Patrick estendeu a mão e apertou seu ombro com firmeza. Não se lembrava da última vez que tinha feito algo assim, se é que já tinha feito. Apenas sentiu que era o que deveria fazer. Surpreendeu-se consigo mesmo. Talvez até tenha gostado disso.
Já estavam de volta à calçada.
— Você trabalha naquele prédio grande que estão construindo ali?
— Sim.
— E o que roubaram de você?
— Celular, carteira, dinheiro.
— Como aconteceu? Você foi à polícia?
— Polícia, véi… Eu só quero ir pra casa, véi. Não quero mais nada, não. Só quero ir pra casa.
Parecia que ia chorar de novo. Mas já não conseguia. Apenas enxugou as lágrimas antigas e olhou para os dedos.
— E como é trabalhar lá? — perguntou Patrick.
— Melhor não fazer nada — respondeu o homem. — Você toca em qualquer coisa e dá problema. Melhor só ajudar.
Patrick o observou. Devia ter uns vinte e cinco anos, talvez mais.
— Duzentos reais, véi. Quero ir pra casa. Só quero pegar um mototáxi e ir para casa.
Mototáxi. Naquele instante, Patrick teve uma ideia. Quase ficou feliz. Mas ainda precisava confirmar.
— Você esteve naquele restaurante ali? Não falou com ninguém?
— Não. Não falei com eles.
— E onde você mora?
— Longe. Muito longe.
— Não dá pra andar?
— Ah, não. O ônibus já não passa mais. E o Uber custa vinte. Falei com um motorista. Só mototáxi… ai, véi…
Patrick quase sorriu de novo.
— E você é gringo? — perguntou o homem.
— O quê?
Patrick não gostava daquela palavra. O homem interpretou a reação como um sim.
Chegaram ao portão do prédio onde Patrick morava.
— Espera aqui.
— Tá bom.
Patrick subiu até o apartamento. Pegou a carteira, as chaves e o capacete. Desceu e abriu o portão. — Vou te levar pra casa.
— Mas… é longe — disse o homem.
— Onde fica?
— Benedito Bentes.
— Tudo bem.
— Mas é perigoso, véi.
Então vamos morrer, pensou Patrick consigo mesmo enquanto ia ligar a moto.
— Você pode fechar o portão? — perguntou quando entrou na rua.
— Sim.
O homem fechou o portão com cuidado. Depois subiu na garupa.
— Vai me dizendo o caminho, ok?
— Vou.
E partiram.
Ainda na praia, vários cenários tinham passado pela cabeça de Patrick. Aquele homem podia ter apenas uma boa história e, dentro da mochila, uma faca, ou até uma arma. Talvez alguém estivesse esperando por ele em algum lugar, quem sabe no destino final para onde estavam indo e de onde talvez não houvesse volta.
Mas então se lembrou do primeiro instante em que o viu. E principalmente do choro. Sim, não podia confiar em ninguém. Mas aquele homem teria de ser um ator muito bom.
Tanto faz. Vamos ver. Pelo menos vou dar uma volta.
E seguiram viagem.
— Eu falei que era longe. Tá vendo? — disse o homem.
Patrick apenas murmurou algo para mostrar que estava tudo bem.
Continuaram avançando. A paisagem da cidade mudou. Ruas escuras, vazias e feias, cercadas por casas sujas. Aqui e ali ainda caminhavam pessoas voltando do trabalho. E os que não iam para lugar nenhum eram moradores de rua. Havia até crianças entre eles.
Isso é o Brasil em que você queria viver…
Não. Isso é o Brasil, e eu não posso mudar nada…
Mesmo assim eu gosto…
Patrick pensou que talvez o convidassem para entrar e conversar um pouco. Afinal, ele era estrangeiro. Talvez os dois até pudessem se tornar amigos. Ficou tão absorto nos seus pensamentos que não viu uma lombada. No Brasil isso é muito fácil. Às vezes estão a cada cem metros e outras vezes não há placa nenhuma. Ou há placa mas não há lombada. Patrick freou no último instante e o homem atrás dele quase saltou da moto.
Aliás, tossia a cada cinco ou dez minutos.
Deve ser por causa do cimento.
Patrick voltou a observar os arredores.
Mas é terrível. Como essas pessoas conseguem viver assim? Por quê?
Por fim, entraram numa viela estreita. Estava cheia de lama e buracos cheios de água. Patrick teve medo de caírem. Seria vergonhoso. Uma grande mancha naquele ato de bondade.
— Aqui.
Patrick parou.
— Obrigado — disse o homem ao descer.
— Ok — murmurou Patrick.
O homem foi até um pequeno portão e chamou alguém. Patrick precisava manobrar a moto para voltar. Enquanto dava ré, olhou para o homem, quase esperando alguma coisa.
— Obrigado — disse o homem novamente, levantando a mão com o polegar para cima.
Patrick voltou para casa. Guardou a moto. Trocou o capacete por um boné e retornou à praia.
Ficou sentado e pensando.
Estranho… Por que justamente eu?
Mas, na verdade, tinha sido bonito…
Por um momento.
Então colocou a música. Aquela playlist que havia preparado.
Olhou para o mar, para a escuridão. As ondas vinham umas atrás das outras, sussurrando e rugindo.
Estava triste outra vez.
Mas ainda assim vivia exatamente da maneira que queria.