Acre não existe

Gustavo tinha cinco filhos. Era de estatura baixa, meio atarracado. Morava no Rio de Janeiro, no bairro de Pavuna, onde também tinha nascido. Os amigos o chamavam de Gusto. Hoje era um grande dia. Recentemente, ele tinha feito pela segunda vez a prova para motorista de caminhão. Finalmente, ia participar de uma entrevista em uma pequena empresa de transporte, a Brasil Continental, que um velho conhecido tinha indicado meses antes.

— Boa sorte, meu amor — disse sua esposa, Rosália, parada na porta com a filhinha recém-nascida no colo, e o beijou. — E não esquece: se você não souber o que dizer, diga sempre “sim”.

— Tá bom, sim — respondeu Gustavo, e, todo nervoso, saiu pela rua em direção ao ponto de ônibus. Estava perfumado e vestia sua melhor roupa, que Rosália tinha passado com todo cuidado.


— Gustavo Eduardo da Silva — disse o senhor José Roberto, diretor e proprietário da Brasil Continental, olhando o currículo sobre a grande mesa.

— Sim — respondeu Gustavo, sentado à sua frente. Suava, pequenas gotas já se formando na testa.

— Bom, vamos pular as formalidades. Sabemos muito bem quem te indicou. Tenho grande consideração pelo seu amigo João. Vamos direto ao ponto — disse o senhor Roberto, deixando o papel de lado.

— Sim, claro — concordou Gustavo novamente.

O sotaque do senhor Roberto era estranho. Gustavo nunca tinha ouvido nada parecido. Não parecia do Rio. Na verdade, não parecia de lugar nenhum que ele conhecesse.

— Você já dirigiu caminhão, imagino — disse.

— Sim, senhor Roberto. Nas provas.

O senhor Roberto torceu levemente o lábio. — Mas alguma experiência você tem. Foi o que me disseram.

— Sim, senhor Roberto. Dirigi uma van Mercedes-Benz Sprinter por dez anos.

O senhor Roberto se conteve para não sorrir. — Já sofreu algum acidente, Gustavo?

— Nunca, senhor Roberto. Nem multa eu já levei.

— E viagens longas?

— Longas! Já fui algumas vezes ao Paraná e à Bahia. Uma vez fui até Alagoas, em Maceió, senhor Roberto.

O senhor Roberto bateu o dedo na mesa. — Nós vamos muito mais longe, Gustavo. Você pode ficar até quatro semanas fora de casa. Está preparado para isso?

— Sim, senhor, claro — respondeu Gustavo sem hesitar.

O senhor Roberto pensou por um instante. — E por que você parou de dirigir a van?

— Bem… tenho cinco filhos, senhor Roberto — disse Gustavo, baixando o olhar.

— Entendo — assentiu o senhor Roberto. Por um momento, ficou em silêncio. Pegou a caneta, bateu levemente no currículo, depois a largou, coçou a orelha e se recostou na cadeira.

— Certo, Gustavo. Semana que vem vou ter uma carga grande. Vou te dar um contrato de experiência e depois a gente vê.

Os olhos de Gustavo brilharam. — Muito obrigado, senhor Roberto. Vou dar o meu melhor.

— Venha na segunda-feira, às sete da manhã. E se prepare — vai ser uma viagem longa. Você vai até o Acre. Sabe onde fica, né? — disse o senhor Roberto, encarando Gustavo fixamente.

Gustavo hesitou. Na verdade, se assustou. Mas logo se lembrou das palavras da esposa. — Sim, senhor, claro — respondeu.

— Ótimo! Chegue às sete. Durma bem. Assinamos o contrato e você já pega a estrada. Quanto ao dinheiro, não precisa se preocupar.

— Muito obrigado, senhor Roberto!

Os dois se levantaram e apertaram as mãos.


— E aí? — correu Rosália da cozinha assim que Gustavo abriu a porta.

— Começo na segunda! — anunciou.

— Eu sabia, meu amor! — gritou Rosália e se jogou no pescoço dele. Encheu-o de beijos. Logo as crianças correram para perto deles e começaram a pular e brincar. — Vamos ficar ricos! — gritava Rosália. — Viva! Viva! — gritavam as crianças.

— Pai! — puxava o pequeno Guilherme pela mão. — E você vai me comprar aquele caminhão, como prometeu?

— Vou sim! Vou te comprar tudo, seu danado! — exclamou o pai, levantando Guilherme no ar.

Naquela noite, todos comeram muito bem.

Quando o casal Silva se deitou, Rosália começou imediatamente a fazer planos para o futuro. Falava de um apartamento novo, de um carro, e não deixou de mencionar o vestido que tinha visto no mercado no dia anterior. E, claro, também não se esqueceu dos estudos da Aline. Gustavo concordava com tudo, como sempre, até que ela acabou adormecendo.

Mas Gustavo não conseguia dormir. Na verdade, aquilo já o incomodava desde que tinha saído da entrevista. Não só não sabia onde ficava o Acre, como nem conseguia se lembrar direito da palavra — nunca a tinha ouvido na vida. Passou o dia inteiro tentando lembrar, em vão. Não contou nada à esposa. Além disso, sentia-se culpado por ter mentido ao senhor Roberto.

— Acre! — veio de repente à sua mente. Mas logo duvidou. — Acre?

Soava mais como o nome de um planeta. Urano, Marte.

Levantou-se em silêncio e saiu do quarto na ponta dos pés. Na cozinha, sem acender a luz, sentou-se à mesa.

Digitou no Google: “Onde fica o Acre?”

Você quis dizer: aço?”

Gustavo balançou a cabeça. Digitou de novo: “O que é Acre?”

O aço é uma liga metálica composta principalmente por ferro e…”

— Que droga! — murmurou.

Digitou irritado: “O que significa Acre?”

Nada. Só apareceram notícias.

— Talvez eu tenha ouvido errado — pensou. E voltou para a cama.


— Não! Ele disse Acre! — disse Gustavo para si mesmo assim que abriu os olhos pela manhã.

Depois foi à padaria comprar pão francês. Lá encontrou um amigo.

— E aí, Gusto? Conseguiu? — perguntou Gabriel.

— Consegui, consegui.

— Pô, parabéns, cara! Que ótimo — disse Gabriel, apertando a mão de Gustavo. — Mas o que foi? Você não tá feliz?

— Tô, sim! — disse Gustavo, mas logo ficou sério. — Escuta… — inclinou-se para mais perto. — Você sabe onde fica o Acre?

— O que é isso? — perguntou Gabriel.

— Também queria saber. Meu chefe disse que vou ter que ir pra lá.

— Nunca ouvi falar disso. Tem certeza que foi isso mesmo que ele disse?

— Próximo! — chamou a atendente do balcão.

— Acho que sim… tenho quase certeza. Sei lá… tô com uma sensação estranha.

— Próximo!!

— Francês, por favor — disse Gustavo.

— Quanto?

— Vinte.

— Gusto, por que você tá esquentando com isso? Eles vão te dar o endereço. Você não tem como saber tudo. O Brasil é enorme, cara — disse Gabriel.


Gustavo estava feliz por finalmente ter conseguido um trabalho melhor, mas não conseguia se livrar daquela sensação estranha. Tentava se acalmar pensando que estava exagerando e dando razão ao Gabriel. Com certeza iam lhe dar um endereço.

Na sexta-feira, depois de uns quinze anos, Gustavo apareceu na biblioteca do bairro. Pediu à bibliotecária que procurasse qualquer publicação com o nome “Acre”.

— Sinto muito, senhor Silva. Não temos nenhum livro com esse nome.

Rosália também já tinha percebido que Gustavo não estava bem. Tentava confortá-lo com comida boa e até diminuiu os planos sobre o futuro. Gustavo queria se abrir com ela, mas não queria deixá-la ainda mais preocupada do que ele já estava.

No domingo à noite, Gustavo viu sua filha mais velha, Aline, lendo um livro no quarto. Ela já tinha quatorze anos. Ele entrou e fechou a porta atrás de si.

— Aline, vocês não aprenderam na escola, em geografia, alguma coisa sobre o Acre?

— Não, pai. Eu lembraria. Deve ser algum planeta. Espera, vou ver no ChatGPT.

Gustavo sentiu uma ponta de esperança. Aline sempre foi confiável. Ele a amava muito.

— Onde fica o Acre no Brasil? O que é Acre? — digitou Aline.

— Hum… Pai, o Acre não existe.

— Deixa eu ver — disse Gustavo, inclinando-se para o celular.

Não há nenhuma menção a cidade ou estado chamado Acre no Brasil.” — leu.

Mas, se quiser, posso listar todos os estados brasileiros e dividi-los por regiões. Também posso listar todas as capi—”

— E por que você quer saber disso, pai? — perguntou Aline.

— Ah, não é nada. Obrigado. Boa noite, minha filha.

— Beijo.


Na segunda-feira, exatamente às sete da manhã, Gustavo batia à porta do escritório de seu quase novo chefe, o senhor José Roberto. Disfarçava o rosto mal dormido e o nervosismo com o barbear impecável, um perfume fresco e, sobretudo, uma atitude positiva.

O senhor Roberto também não tinha dormido bem, por motivos desconhecidos. Ao contrário de Gustavo, não fez questão nenhuma de disfarçar — deixou isso bem claro desde o início.

— Bom dia, senhor Roberto — disse Gustavo com respeito, dando alguns passos cautelosos à frente.

— Vamos logo, Gustavo! Não tenho muito tempo — resmungou o senhor Roberto, sem sequer olhar para ele.

Gustavo deu um pulo, foi até a cadeira, puxou-a com um tranco e sentou-se rapidamente, com a bolsa no colo.

O barulho irritou o senhor Roberto, que lhe lançou um olhar frio. Além disso, a agilidade e a obediência de Gustavo também o incomodavam.

— Aqui está o contrato — disse, seco. — Leia e assine.

Gustavo preferiu apenas passar os olhos pelas quatro páginas. Mas reparou muito bem no valor do salário. Quase se sobressaltou. Nunca na vida imaginara ganhar tanto dinheiro. Olhou para o senhor Roberto com uma lealdade tamanha que quase teve vontade de abraçá-lo.

— Aqui estão os papéis da carga. O caminhão já está carregado — continuou o senhor Roberto, no mesmo tom. — Você vai para o Acre. Se tudo correr bem, estará de volta em exatamente vinte e cinco dias. Está tudo nos documentos. E vê se não bate o caminhão — se bater, está fora na hora!

Essa última parte ele nem registrou agora. Ao ouvir novamente a palavra “Acre”, Gustavo se assustou outra vez e fixou o olhar nos papéis da carga.

— Sim, senhor Roberto, muito obrigado. Pode contar comigo — disse, assim que conseguiu se recompor.

— Então anda logo. Já estou de saída.

Gustavo se levantou, pegou os papéis e apressou-se em direção à porta.

— Gustavo! — chamou o senhor Roberto.

Gustavo parou e se virou. — Sim?

— Quando passar por Cuiabá, uns trinta quilômetros depois da cidade, tem uma churrascaria na estrada, a Dona Marta. Pare lá. Eles têm a melhor feijoada do Brasil — disse o senhor Roberto, abrindo mão, por um momento, do mau humor.

— Sim, senhor, claro, obrigado — murmurou Gustavo, desaparecendo pela porta.

No estacionamento em frente ao prédio da Brasil Continental estava parado um caminhão de trinta metros, um Volvo com dois reboques. Gustavo ficou olhando para ele por um instante e, com um leve sorriso, caminhou até a porta. Mas assim que a fechou e se acomodou em seu novo lar, começou imediatamente a folhear os papéis da carga.

— Ora, ora! — soltou, aliviado.

CASAGRANDE, S.A.
R. Acre, 111
Cruzeiro do Sul
Acre
659043-000

Gustavo digitou o endereço no GPS, animado, e esperou.

Mas nada apareceu no mapa. Um calor súbito tomou conta dele.

— Não… isso não é possível!

Tentou de novo.

Nada.

Gustavo levou a mão à testa e balançou a cabeça.

— Alguém está brincando comigo?

Tentou digitar apenas “Cruzeiro do Sul” — nada de novo.

Gustavo ficou com medo, mas sabia que precisava fazer aquilo. Pegou os papéis e voltou para o senhor Roberto.

— O que foi agora? — disse o senhor Roberto. Já estava de saída e trancava a porta. Ao ver a expressão de Gustavo, ficou visivelmente tenso.

— Senhor Roberto, eu… desculpe… acho que o endereço está errado.

— Ah, não me diga! De novo? Você também?

Gustavo não entendeu nada. Olhou para ele e disse apressado:

— Quer dizer… senhor Roberto… eu não consegui encontrar esse endereço.

— Escuta aqui, meu amigo — disse o senhor Roberto, pousando a mão no ombro de Gustavo. — Já estou cansado dessas brincadeiras! Se você também quer tirar sarro, ótimo — eu abro essa porta agora mesmo e rasgo esse contrato em pedaços. Já estou farto de vocês!

— Não, senhor Roberto! Por favor! — disparou Gustavo, quase se metendo na frente da porta.

— Não? Como não? Então o que você quer? Vai me dizer também que Acre não existe? Vamos, diga!

— Se… senhor Roberto… eu… me desculpe, mas eu realmente tenho a impressão de que Acre não existe — escapou de Gustavo, tremendo.

— Não existe, é?! — gritou o senhor Roberto, vermelho de raiva. — Seus desgraçados! Eu já aguentei demais! E ainda querem que eu pague vocês? Entre nesse caminhão, seu miserável, e vá para o oeste! Some da minha frente! Anda! Fora daqui!

O senhor Roberto gritava com tanta fúria que chegava a cuspir. Gustavo ficou completamente paralisado.

— Fora!! — berrou o senhor Roberto, batendo o pé no chão com o punho erguido.

Gustavo deu dois passos para trás e então saiu correndo do prédio até o caminhão. Ligou o motor e, o mais rápido que pôde, entrou nas ruas do Rio de Janeiro — sem fazer ideia de para onde estava indo.


Cerca de duas horas se passaram até que Gustavo, em meio a um semitranse, chegou à periferia de Nova Iguaçu e parou em um posto de descanso. Não fazia ideia de como tinha ido parar ali. Só depois de algum tempo os pensamentos começaram a voltar — e, com eles, a noção de onde estava.

Após mais uma hora sentado, imóvel, tentou digitar o endereço novamente — em vão. Aos poucos, foi caindo na real de que talvez tivesse sido vítima de uma brincadeira de mau gosto, talvez até de um golpe. E, ainda assim, continuou. Na cabeça dele, aquele valor do salário ainda piscava — como a luz do Farol da Barra.

— Mas dinheiro não é tudo — dizia a si mesmo. — Também não vou ficar fazendo papel de idiota. Já estou fazendo papel de idiota.

Gustavo lembrou de como passou um ano inteiro estudando para tirar a carteira de motorista, do esforço que colocou nisso — e também de como, no fundo, nem queria tanto assim. Antes, ele era até feliz.

— Eu devia ter ficado lá! — bateu no volante. — De novo eu fiz o que ela quis. Sempre faço o que ela quer!

Mas logo veio a vergonha — e, com ela, o pensamento nos filhos. No fim, adormeceu.


O sol já estava quase se pondo. Gustavo acordou com o estômago roncando. Foi comer numa pequena lanchonete de posto.

Quando terminou de pagar, olhou para a atendente.

— Tudo certo, senhor?

— Você por acaso sabe onde fica o Acre? — perguntou.

— Não faço ideia — respondeu ela, balançando a cabeça.

— Pra que fui perguntar! — resmungou, fez um gesto com a mão e saiu.

De volta ao caminhão, suspirou e escondeu o rosto nas mãos. Ficou assim por um tempo, até que de repente algo lhe veio à cabeça:

“Churrascaria Dona Marta… Cuiabá!”

Na hora, pegou o celular e começou a procurar. Exatamente trinta quilômetros depois de Cuiabá — o lugar existia mesmo.

Gustavo enfiou a chave na ignição e girou com tanta força que quase a quebrou. O Volvo rugiu e já saiu puxando na direção de Cuiabá.


Depois de cinco dias, Gustavo finalmente passou por Cuiabá. Na churrascaria Dona Marta, enfrentou uma fila longa. O senhor Roberto tinha razão — a feijoada realmente era excelente.

Mas só de pensar nele já lhe dava um mal-estar. Nem passava pela cabeça ligar para ele. Só de imaginar que fosse o senhor Roberto quem ligasse, já ficava tenso. Pelo jeito que tinha gritado, devia estar bravo até agora.

Na hora de pagar, Gustavo preferiu não perguntar mais nada.

— E agora? — disse em voz alta, ao se acomodar ao volante.

— Não sei.

Deu a partida e voltou para a estrada.

Já estava tão longe de casa. Se perdeu em pensamentos, depois voltou.

— Eu realmente não sei para onde estou indo — disse.

Riu.

— Não tem graça.

Então viu o pôr do sol.

— Que beleza… — murmurou, e seguiu. — Seu miserável…

— Oeste! — gritou. — Vá para o oeste!

Parou imediatamente para olhar o mapa.

— Oeste, oeste… — repetia.

Primeiro viu Mato Grosso do Sul e a fronteira com a Bolívia. Mais a oeste vinha Rondônia. Mas dava para ir ainda mais longe — Amazônia. E depois? Depois não havia mais nada.

— Vinte e cinco dias. Vinte e cinco dividido por dois… doze e meio. Estou na estrada há cinco dias. Se tenho que fazer exatamente a metade, então preciso dirigir mais uns sete dias… para o oeste.

E assim, seguiu para o oeste. Quanto mais avançava, mais aquilo se fazia sentir. Nunca teria imaginado o tamanho real do seu país. E, com isso, o medo crescia. Será que alguém pode ir tão longe e por tanto tempo sem saber para onde vai?

Começou a pensar na vida. Vinham-lhe ideias estranhas. Por exemplo, que já estando tão longe e sem saber de nada, talvez nem precisasse voltar. Pensou que poderia vender o caminhão e fugir. Mas eram só lampejos — no fundo, tinha mais medo dessas ideias do que de não encontrar o Acre.

Depois voltou a pensar em Rosália e nos filhos.

E então já era tarde demais. Parou e foi dormir.


Quatro dias depois, Gustavo percebeu que já fazia dois dias que dirigia por uma estrada reta, atravessando uma selva infinita. Não havia uma única saída.

A cada três horas, mais ou menos, quando via alguém, já nem hesitava — perguntava a todos onde ficava o Acre. Ninguém sabia.

Quis ao menos ver onde estava. Se assustou ao perceber que não tinha sinal nenhum, nenhuma conexão com o mundo. E, quando olhou em volta de novo, teve a sensação de que estava dirigindo até o fim do mundo.

Mais um dia se passou, quando ao longe finalmente viu a estrada se dividir. Chegou até lá — mas não havia placa nenhuma, nada. Só macacos atravessando a estrada, um atrás do outro. O último arrastava um enorme cacho de bananas.

Gustavo ficou ali sentado por muito tempo.

Então, finalmente, começou a chorar.

Gemendo, repetia: — Acre! Acre! Acre! — E batia a cabeça no volante, fazendo o caminhão buzinar no meio do nada.

— Acre? — ouviu-se de algum lugar.

— Acre! — gritou Gustavo e bateu no volante de novo.

— À esquerda. E segue sempre em frente.

— O quê?

Gustavo olhou pela janela.

Lá estava um velho numa bicicleta enferrujada, com um enorme saco de feijão.

— À esquerda. E sempre em frente — repetiu, apontando com a mão.

— Acre? — Gustavo olhava para ele como se fosse um alienígena.

O velho caiu na risada. Tinha só dois dentes. Mal dava para entender, mas disse: — Primeira vez por aqui, hein?

O caminhão partiu. O velho ficou parado, observando-o. Então, montou na bicicleta e começou a pedalar com dificuldade. Um rangido ecoou pelo silêncio e, com ele:

Brasiiil
Meu Brasil brasileeiro
Meu mulato inzoneeiro
Vou cantar-te nos meus veeeersooos

O Brasil, samba que dá
Bamboleio que faz gingar
O Brasil do meu amor
Terra de Nosso Senhoooor

Brasiiiil Brasiiiil
Pra miiim pra miiiim

Gustavo nunca tinha sido tão feliz na vida. Tudo o que via agora era sua mulher naquele vestido novo, lindo. As crianças dançavam.

A vida inteira passou diante dos seus olhos. Aline já era reitora da UFRJ. O pequeno Guilherme tinha seguido os passos do pai e dirigia um Volvo ainda maior que o dele. A recém-nascida Luiza Ana era bailarina — e assim por diante.

Mas, aos poucos, o seu ânimo começou a diminuir.

Já era o terceiro dia seguindo sempre em frente, e aquilo realmente começava a parecer o fim do mundo. Havia um posto de gasolina talvez a cada mil quilômetros.

Pelas suas contas, já devia ter chegado. Gostaria de olhar o GPS ou a internet, mas nada, claro, funcionava.

Além disso, fazia tempo que não comia direito. E então veio a diarreia, de modo que parava quase o tempo todo — às vezes a cada quilômetro.

E era justamente isso o mais estranho: sempre que se agachava à beira da estrada, vinham sons esquisitos da selva. Uma vez, teve até a impressão de que algo o observava.

Começou a ter medo de sair do caminhão e muitas vezes preferia segurar. Dizia para si mesmo: — Depois da curva.

Mas não havia curva nenhuma nunca.

— Já estou de saco cheio. Esse Acre de porcaria! Quando eu encontrar esse lugar, vou mandar erguer uma estátua minha lá — dizia em voz alta.

— Ai! Que porra foi isso!? — gritou, inclinando-se para a frente. Teve a impressão de que algo muito grande atravessou a estrada ao longe.

De repente, foi tomado pelo medo de estar enlouquecendo. Ou de ter pegado dengue, malária, ou Deus sabe o quê.


Era exatamente a décima terceira noite. Gustavo não aguentava mais. Como por milagre, chegou a um ponto de descanso — apenas uma pequena cobertura com um banco. Parou, mas não desceu.

O barulho da selva vinha de todos os lados. Ele não se sentia nada bem. Trancou-se e, completamente exausto, adormeceu atrás dos bancos.

PÁ!

Gustavo despertou num sobressalto e bateu a cabeça com força. Algo enorme tinha caído sobre o teto do seu Volvo. O coração disparou como se fosse saltar do peito.

Ficou ali uns dez minutos, apenas engolindo em seco. Lembrou-se das palavras do senhor Roberto sobre o que aconteceria se danificasse o caminhão. Aquilo, pelo menos, não tinha sido culpa dele.

— Deve ter sido um galho… — tentou se acalmar.

Precisava ir ver.

Acendeu a luz do celular e abriu a porta devagar. Já era quase de manhã. Relativamente silencioso — mas ainda escuro.

Quando desceu e apontou a luz para o teto, viu uma massa enorme de algo que parecia terra.

— Um meteoro! — foi o primeiro que lhe veio à cabeça.

Mas logo em seguida sentiu um fedor insuportável.

Era uma merda. A maior merda que Gustavo já tinha visto na vida.

Então veio aquele sentimento terrível. Virou-se lentamente e, com cuidado, apontou a luz para as copas das árvores.

Viu uma cabeça animal gigantesca. E então, das árvores, surgiu o Lacilotitus Erectus, o chamado Grande Bípede — um dinossauro que se acreditava extinto há quase mil cento e cinquenta milhões de anos.

Gustavo começou a gritar tão alto que assustou o animal mais do que ele próprio estava assustado — e a criatura começou a berrar também. No mesmo instante, Gustavo desmaiou e caiu no chão.


Quando acordou, o sol já brilhava havia muito tempo. Havia uma mulher de pé sobre ele. Gustavo percebeu onde estava e começou a gritar de novo. Depois de um tempo, se acalmou, mas ainda apavorado, começou a balbuciar para a mulher o que tinha acontecido. Ela, porém, só ria.

Gustavo começou a chorar. Era como um pesadelo, coisa de ficção científica.

— Menino, você está no Acre — disse a mulher, ainda rindo. — E você é de onde, que fala assim todo enrolado?

— Eu sou do Rio — disse ele, enxugando as lágrimas.

— Então bem-vindo ao Acre! — deu um tapinha na coxa dele. Estavam sentados no banco sob o telhadinho.

— Eu já estou no Acre? — perguntou.

— Não tá vendo essa merda? — disse, apontando para o caminhão.

— Vocês têm dinossauros aqui? — perguntou, espantado.

— Ih, e dos bons!

— Eu não sabia.

— Claro que não sabia! Aqui é o fim do mundo! Pra onde você tá indo?

— Cruzeiro do Sul.

— Então é só seguir reto, meu filho. Em oito horas você chega.

— E lá também tem? — perguntou em voz baixa.

— Tem, mas não precisa ter medo. Eles não fazem mal. Só não grita com eles. Senão eles gritam também — e quando começam, não param mais.


E assim, na sua jornada pela vida, Gustavo finalmente chegou ao destino. Estava diante do depósito de um grande prédio da Casagrande S.A., em Cruzeiro do Sul.

Tudo ali já funcionava novamente.

Sua carga estava sendo descarregada — brinquedos, milhares de dinossauros.

Ele ainda não compreendia o que tinha conseguido, que realmente tinha descoberto o Acre.

De repente, saiu um homem. Gustavo se assustou de novo. O sujeito era muito parecido com o senhor Roberto.

— Meu irmão quer falar com você — disse, entregando o telefone a Gustavo.

Gustavo nem teve tempo de respirar direito.

— Então, Gustavo… o Acre existe? — disse o senhor Roberto.