Daniel Harnol

Flores para Algernon

Daniel Keyes

Ficção científica
Primeira publicação: 1 de abril de 1966
Idioma original: Inglês

Skoob

Começou tão bem. Logo comecei a gostar de Charlie. A maneira como ele falava parecia genuína e distinta. Não o vi como um tolo. Pelo contrário, ele demonstrava verdadeiro discernimento e parecia consciente do sentimento de superioridade que as pessoas têm em relação àqueles que consideram inferiores. Ele parecia entender que a inteligência e o desejo por conhecimento podem atrapalhar a verdadeira felicidade. Ainda assim, eu compreendia seu desejo de se tornar inteligente. Senti empatia por ele e torci para que conseguisse.

E de repente, Charlie ficou inteligente, embora tivessem lhe dito que levaria muito tempo. Não levou. Aquilo que eu esperava ser o objetivo central da história — sua transformação — já havia acontecido antes mesmo do fim do primeiro quarto do livro. O próprio Charlie mal percebeu. Não houve celebração. Nada. Em vez disso, ele simplesmente se tornou um ser humano comum e miserável. Até esse ponto, a leitura ainda era agradável.

Então comecei a sentir que Charlie talvez tivesse ficado inteligente demais. Agora parecia empenhado em me dar lições. Tornou-se tão inteligente que, por exemplo, não resistiu a mencionar o lendário D. Será que ele pensava já ter se tornado um homem com a mesma capacidade? Precisei parar e me perguntar se eu estava pensando em Charlie ou no autor.

E só piorou. Antes que eu percebesse, Charlie conseguia ler mentes e caminhava rumo a um QI de 180. Alice também me surpreendeu — ou melhor — decepcionou. Primeiro ela diz: “Ainda não”. Um minuto depois, toma a iniciativa de beijá-lo. Charlie sabe o motivo. Ele explica que Alice não sabia quem ela era nem em que mundo queria viver. Explicação, aliás, é algo que este livro faz muito bem. Charlie faz questão de repetir, caso nós também sejamos estúpidos — ele sabe como isso se sente.

Nesse momento, eu já tinha certeza. Eu não estava lendo um bom livro. Estava assistindo a um filme de Hollywood mediano, ou até abaixo da média, dos anos 80–90. Pena que eu ainda estava apenas no segundo quarto, e, pouco a pouco, comecei a me sentir frustrado como Charlie. E quando o pai de Charlie o defendeu, insistindo para a mãe que a ereção não era culpa dele, perdi toda a esperança. Aquilo era apenas uma introdução aos personagens absolutamente rasos, com seus diálogos artificiais, que ocupavam cerca de 200 páginas.

Havia todos os clichês. Os sonhos intermináveis e repetitivos. O passado. As visitas à família, que eu não tinha dúvida de que aconteceriam. E, acima de tudo, o clímax de fazer sexo, sim, sexo com Alice. Esse era o verdadeiro arco do livro. Felizmente, levei apenas alguns minutos para chegar lá, folheando apressadamente as páginas, sem querer adiar o prazer e sem me preocupar nem um pouco em perder algo. Tirando Algernon (um nome terrível) conseguindo fugir da gaiola, não havia nada.

Ainda assim, percebi alguns detalhes sutis e peculiares. A forma como palavras como sexo, beijo e nudez são inseridas sempre que surge a oportunidade, enquanto ainda tentam parecer inocentes e indiferentes, sugere outra palavra: perversão. Não é algo explícito, mais como uma névoa, mas está lá.

Psicologicamente, este livro falha completamente. Tudo é possível, como na fantasia. Argumentos e muitos outros conflitos não têm origem real; surgem de repente, como alucinações — exceto que até alucinações têm uma causa. Não há um único personagem que pareça completo; eles simplesmente não fazem sentido. Só consegui apreciar o final, quando Charlie volta a ser estúpido (inteligente) novamente. Até senti certa emoção. Mas isso corresponde a apenas cerca de setenta páginas de trezentas no total.

Este livro sugere que até uma arte muito pobre pode ser apreciada, vendida e, mais tarde, celebrada como medida de sua própria qualidade, como se a quantidade fosse prova de valor. Mostra que até livros premiados podem não refletir seu verdadeiro mérito, e que aqueles que os indicam merecem ser questionados. Sinto muito — e não sinto nada.