Daniel Harnol

Rio de Janeiro

Existem muitas palavras que significam algo — e hoje simplesmente são.

Não é porque o significado tenha desaparecido, mas porque o tempo e o lugar — especialmente um lugar estrangeiro — nos tornaram alheios.

Quando ouvimos ou pronunciamos uma palavra estrangeira, ouvimos apenas um som. Não buscamos sua origem, não a desconstruímos, nem perguntamos. Aceitamos como um todo, como algo acabado. Seu verdadeiro significado se recuou.

O que em um lugar poderia ser uma frase inteira, em outro não passa de um nome. O que poderia contar uma história é apenas apontado, como um dedo sobre um mapa. Uma palavra deixa de contar sua história.

Muitas coisas nascem com significado. O uso vai desgastando-o. O que resta é o nome.

E, ainda assim — o significado continua lá.

Então ouvi e vi.

Lá, a água corre. O que é?

Um rio — rio.

Como vamos chamá-lo? É janeiro.

Um rio de janeiro — O Rio de Janeiro! Nossa!

A verdade é que, na realidade, não havia nenhum rio. No dia 1º de janeiro de 1502, Gaspar de Lemos navegou pela Baía de Guanabara, acreditando se tratar de um grande rio. E imagine — se fosse apenas um dia antes, poderia ter sido chamado de Rio de Dezembro.

Quantos de nós, estrangeiros, realmente sabiam o que “Rio de Janeiro” significava quando ouviram o nome pela primeira vez? E ainda assim — quem nunca o ouviu ao menos uma vez na vida? Quem, ao ouvir, não imagina samba, Carnaval, o Cristo Redentor, Copacabana? Quem não sente algo despertar — uma súbita paixão pela vida?

Rio de Janeiro. A Cidade maravilhosa.

Mesmo assim, o Brasil — como os próprios brasileiros dizem — não é feito apenas de Rio de Janeiro, nem de São Paulo. O Brasil tem muito mais a oferecer. Estendendo‑se da fronteira com a Venezuela até a fronteira com o Uruguai, o país ocupa cerca de 4 400 km de norte a sul. Deve haver algo mais. E, de fato, como os brasileiros brincam, no estado do Acre — um dos lugares mais isolados e esquecidos — ainda vivem dinossauros.

Mas o Rio de Janeiro não é um mito, nem apenas uma palavra. Não é um lugar para ser pulado ou deixado de lado. Visitar o Brasil e não passar por aqui poderia quase ser chamado de pecado.

Embora a própria cidade tenha seus próprios pecados também, parece que todos querem estar lá — os bons e os maus, os mais pobres tanto quanto os mais ricos.

Todos correm para a praia, jogando futebol, vôlei, futevôlei, surfando ou simplesmente deitados ao sol. A vida aqui flui para fora; não fica atrás de portas fechadas. A praia é um estilo de vida. A multidão é um oceano de encontros — família, amigos ou estranhos, não importa.

E quão bem eles se apresentam, como se vestem, como se mostram — porque a aparência importa. Ou como, apesar da violência e do trânsito caótico, onde cada centímetro conta e todos querem estar na frente, eles ainda conseguem sorrir e dançar ao som do samba — ou daquela música “horrível” chamada funk.

Por quê?

Porque tudo vai dar certo!

Isso não vale apenas para os cariocas; vale para todo brasileiro. Mas onde isso poderia ser mais verdadeiro do que no Rio? Acima de tudo — acima de todas as favelas, no alto do Corcovado — está Aquele com os braços abertos, abençoando todos os cidadãos igualmente.

Lá, aos seus pés, olhando para toda a cidade, só se pode ficar admirado… e chorar silenciosamente. Não poderia haver nada maior do que isso. Mas você pode se casar lá, se quiser.

Ainda assim, o Rio não é para todos. Está longe de ser perfeito e muitas vezes é mais escuro do que o pôr do sol sobre o Pão de Açúcar. Mas não importa o quão ruim possa chegar a ser, não importa o quanto reclamemos, o Rio será sempre o Rio de Janeiro — cheio de vida, do tipo que você começa a sentir falta assim que se lembra dele.

E sim, o Brasil não é apenas o Rio de Janeiro.

Mas o Rio de Janeiro — é o BRASIL.