Daniel Harnol

O primeiro amor

Ivan Turgenev

Clássicos, Novela
Primeira publicação: 1 de janeiro de 1860
Idioma original: russo

Goodreads

O primeiro é especial, novo. É lembrado, mais interessante de revisitar do que o mundano, o duradouro — duradouro como madeira petrificada preservada por milênios, e ainda assim completamente morta.

Parece que O PRIMEIRO lava incessantemente uma rocha até que nada reste dela. Quanto mais breve foi, e quanto mais tempo permanece, maior se torna o seu poder.

A história imediatamente parece real. Como não poderia? Todos nós a vivemos — naqueles dias em que algo despertou dentro de nós, uma força que não podíamos controlar e nem tentávamos. A vida havia apenas começado a se lançar para frente, e nós mergulhamos de cabeça em sua corrida frenética.

Então vem o impacto — o amor. O amor, na voz do narrador, tão forte, tão real e inocente que até a inveja se agita no coração do leitor. Ele é forçado a se perguntar se alguma vez sentiu algo parecido. Parece como se tivesse perdido algo.

Era amor de todos os tipos. Tirava todo o sono. Constantemente inventava coisas mais tolas que a anterior. Era um amor tão vergonhoso que se poderia querer afundar no chão em um momento, e depois um amor tão sublime que ainda hoje se poderia sentir orgulho dele. Mais importante de tudo — era um amor não correspondido.

Mas você espera. Você se afoga em sonhos e esperanças. Você acredita. Ah, você ainda é tão jovem e ingênuo. Por que não perder um pouco de tempo — talvez mais — por aquele que você tanto ama?

Mas você não é o único. Você pode pensar que diz respeito apenas a você. Mas aqui está a verdade: todos querem amar. A luta começa.

Parece mais fácil para aqueles por quem se luta. Eles podem escolher. Aqueles que precisam lutar são rapidamente tidos como certos. Tornam-se comuns. Mais cedo ou mais tarde, até mesmo aqueles por quem se luta começam a definhar. O amor não poupa ninguém.

Isso lhe soa familiar? Este livro nos leva de volta, e o faz muito bem. Mas o que ele realmente diz? Por um momento, não está claro.

Não pode ser apenas sobre o amor — certamente não o amor cor-de-rosa. Existem outras forças, igualmente incontroláveis. Uma pessoa, não importa o que tenha, quem tenha, ou quanto tenha, pode nunca se entregar completamente. E há a natureza — não o amor, mas a natureza — à qual até mesmo o amor deve se submeter.

Não importa a idade, o status ou a classe — quem não se curvaria diante de tal beleza? Sempre foi assim. A beleza se torna tudo. Permitimos que ela nos torture. Nós nos humilhamos e chamamos isso de virtude.

E se nunca tivesse sido amor, mas apenas sofrimento que acreditávamos nos tornar dignos?

O narrador não pergunta isso. Ele é puro como um lírio. Infelizmente, ser assim muitas vezes é perigoso. Por alguma razão, a pureza não está distante da cegueira. Mais estranho ainda é quando essa pureza é tomada pela própria pessoa que ajudou a criá-la — a mais próxima, e ainda assim a mais distante.

Contudo, a voz do escritor permanece calma e controlada. Tendo vivido tudo isso, ele mantém uma distância notável. É precisamente esse tipo de voz que impõe respeito e nos lembra que estamos diante de uma pessoa extraordinária.

Ele não precisa gritar para ser visto. Ele simplesmente se senta e escreve. O texto é quase simples, facilmente compreendido, e nunca finge ser o que não é. Não embeleza nem romantiza, como muitos seriam tentados a fazer em uma história como esta. Seu único objetivo é refletir a vida com verdade.

A trama é inteligente. Os personagens vivem. E a figura central, uma mulher, revela que quando a felicidade de um homem depende dela, ela deixa de ser uma pessoa e se torna um objeto — uma presa — e até a menor ameaça se torna intolerável para seu grupo de conquistadores.

Antes que termine, a inveja sutil que havia surgido tão imperceptivelmente desaparece de repente. Percebemos que toda aquela familiaridade que sentimos desde o início é, na verdade, nossa própria experiência. É quase impossível acreditar que nós também fomos um dia capazes de sentimentos tão profundos, que também pudemos ser tão inocentes e puros.

Nós esquecemos. Não por causa do tempo. Esquecemos por causa da repetição, da monotonia e de nossa recusa em mudar. Pois, se mudarmos, quem amaremos? E, mais importante, quem nos amará? A menos que… a menos que mudem conosco.

Mas mudar é ter medo. Ainda assim, sem mudança, o amor não pode existir. Ele é para sempre livre. Sem medo ou amor, resta apenas um acordo — um compromisso, quase como um casamento.

Muitos de nós, autoproclamados sábios, sorririam com desdém de um tema como o amor, especialmente o primeiro amor. Mas esta história não o celebra. Em vez disso, ela nos lembra o quão raro é encontrar um amor que seja mútuo — e que, mesmo quando o encontramos, nossos desejos mais profundos raramente são compreendidos de verdade. Ainda assim, em nome do amor, que seja como tiver de ser. Em seu nome, pode-se justificar qualquer coisa.

Mas por que tudo isso? Não existe algo mais do que apenas amar alguém?

O tempo é tão precioso.

“A grande coisa é viver uma vida normal, e não ser escravo de suas paixões.”

A grande coisa é viver a sua própria vida, e ser o senhor de suas paixões.