O vendedor de sonhos: o chamado

Augusto Curry

Ficção
Primeira publicação: 1 de janeiro de 2008
Idioma original: português
Goodreads

Este relato começa antes mesmo de começar. Em sua introdução, o autor nos informa sobre suas outras obras, sobre há quanto tempo já escreve e sobre a quantidade de textos ainda não publicados.

Muitos não entendem por que meus livros são tão procurados, já que não tenho atração por propagandas e, dentro do possível, possuo uma vida social um tanto reclusa. Talvez seja por causa das viagens pelo território do insondável mundo da mente humana. Sinceramente, não mereço esse sucesso.

Essas palavras certamente merecem atenção. Também vale mencionar o desejo do autor de que seus livros sejam lidos por jovens, pois estes seriam, com poucas exceções, “consumidores de produtos e serviços”.

A história começa quase como uma tragédia. Logo surge uma personagem que tem uma solução. Mas ainda mais rápido aparece a repetição, já na primeira página. E a retórica na segunda.

Mais um ser humano queria abreviar a já brevíssima existência. Mais uma pessoa planejava desistir de viver. Era um tempo saturado de tristeza. Morriam mais pessoas interrompendo a própria vida do que nas guerras e nos homicídios.

A descrição física do protagonista ocupa mais da metade da página. Esse homem é apresentado como misterioso, porém esse pronome é repetido diversas vezes posteriormente.

O segundo capítulo começa. O protagonista tenta convencer o suicida, o narrador, a não fazê-lo. Mas ele não fala apenas com o suicida. Ele fala com o mundo inteiro. O capítulo se alonga. Ao mesmo tempo, seria de se esperar que, em tais casos, não houvesse muito tempo. Aqui e ali surge um raio de esperança, tanto no suicida quanto no texto:

Ele entendeu que ninguém pode julgar a dor dos outros.

No entanto, logo o monólogo se transforma em algo semelhante a uma sessão de psicólogo ou uma palestra universitária.

Eu lhe respondo se primeiramente me responder. De que fonte filosófica, religiosa ou científica você bebeu para defender a tese de que a morte é o fim da existência? Somos átomos vivos que se desintegram para nunca mais resgatar a sua estrutura? Somos apenas um cérebro organizado ou temos uma psique que coexiste com o cérebro e transcende seus limites? Que mortal o sabe? Você sabe? Que religioso pode defender seu pensamento se não usar o elemento da fé? Que neurocientista pode defender seus argumentos se não usar o fenômeno da especulação? Que ateu ou agnóstico pode defender suas ideias sem margem de insegurança e sem distorções?

Isso não acontece numa sala de aula ou numa poltrona confortável, mas no topo de um arranha-céu. O suicida está na beirada e ameaça que agora realmente vai pular. Mas precisa ser convencido, e o narrador chama isso de “grandes ideias”.

No terceiro capítulo fala-se até da teoria de Darwin.

Por que Darwin, nos instantes finais de sua vida, quando sofria de intoleráveis náuseas e vômitos, bradava “Deus meu”? Era ele um fraco ao clamar por Deus diante do esgotamento de suas forças? Era ele um covarde por se perturbar diante da dor e, ao se aproximar da morte, considerá-la um fenômeno antinatural, embora a sua teoria se fundamentasse em processos naturais da seleção das espécies? Por que ocorreu um grave conflito entre sua existência e sua teoria? A morte é o fim ou o começo? Nela nos perdemos ou nos encontramos? Será que, quando morremos, somos regurgitados da História como atores que nunca mais contracenam?

Como o suicida chegou até lá?

Como professor, ele se apaixonou por uma estudante quinze anos mais jovem, comprava pequenas coisas para ela e acabou se endividando. A esposa descobriu e o deixou. Ela foi embora levando o filho. Depois ele percebeu que a amava e seu mundo desmoronou. Chorou, supostamente pela primeira vez desde a morte da mãe. Seu nome era Júlio César. Ele ainda não pulou.

O quarto capítulo termina. Júlio finalmente encontrou salvação em seu salvador, o Vendedor de Sonhos, o mestre, como ele o chama, e decidiu se submeter aos seus ensinamentos. Isso aconteceu na quadragésima página.

Eles vão para o mundo. Todos que os encontram precisam ouvir mais e mais lições, ou participar do chamado “duelo do ego”. O jogo consiste em fazer com que, de cada conversa, o protagonista saia como vencedor.

Policial: — Qual o seu nome? — perguntou, num tom arrogante.

Narrador: O homem (o Mestre) que estava ao meu lado fitou furtivamente seus olhos, mudou de assunto e chocou-o com estas palavras:

Você não está alegre por essa pessoa ter corrigido sua rota? (Não ter se matado.) Não entrou num estado de júbilo pelo fato de ela ter resgatado sua vida? — E apontou o olhar para mim.

O frio policial caiu do pináculo do poder. Perdeu o rebolado. Não esperava que sua insensibilidade fosse desnudada em poucos segundos. Constrangido, disse formalmente:

Sim, claro que estou feliz por ele.

Todas as pessoas que respondiam estupidamente para o Mestre engoliam sua insensatez. Eram estimuladas a enxergar seu superficialismo e a cheirar o odor das próprias tolices. Ele continuou a torpedeá-lo:

Se você está feliz, por que não exterioriza sua felicidade? Por que não pergunta seu nome e lhe dá os parabéns? Afinal de contas, a vida de um ser humano não vale mais do que o edifício que nos sustenta?

Três personagens: o policial, o Mestre e o narrador. O policial está apenas fazendo seu trabalho, mas é acusado de arrogância. O narrador parece bastante envolvido, defendendo o Mestre. O Mestre, por sua vez, nem sequer fala diretamente do assunto. Mais do que inteligência, demonstra um excesso de autoconfiança, senão de pura superioridade.

Nesse mesmo tom, a história continua. Mas ainda mais coisas são reveladas. O texto já no início tentou lutar contra ideologias, inclusive contra a religião. Na prática, porém, parece diferente:

Os socialistas sacrificaram milhões de pessoas em nome de um ideal, mas esse Cristo quase enlouqueceu por um pequeno ser humano e ‘enlouqueceu’ de alegria ao encontrá-lo.

Ao mesmo tempo, o livro fala da importância de ter seus próprios sonhos.

Depois vem isto:

Fiquei impressionado; conhecia o poder da crítica, mas não estava ciente do poder do elogio.

Contra o que o texto luta, paradoxalmente, ele mesmo usa como arma. Além disso, fica cada vez mais evidente que tanto o narrador quanto o protagonista servem ao autor como porta-vozes, permitindo constantes desvios para suas ideias filosóficas, morais e até sermões.

Pelo estudo da história da riqueza nacional, compreendi o significado sociológico dessa última ideia. Entendi que muitos que herdaram ou receberam fortuna não conquistada pelo próprio esforço não valorizam o trabalho de seus pais e desperdiçam sua riqueza como se fosse infinita. A herança tornou-se um fardo de uma vida astuta e superficial. Concentraram-se na satisfação imediata e quiseram desfrutar o máximo do presente, sem prever as tempestades futuras.

A partir daí, a história passa a ser mais um meio de transmitir ideias que talvez encontrassem um lugar mais natural em um ensaio ou obra de filosofia popular. A trama perde importância, e as personagens passam a funcionar mais como veículos de opiniões do que como pessoas reais.

Como uma obra assim conseguiu tanto sucesso e foi traduzida para dezenas de idiomas?

Um dos motivos pode ser justamente o seu tom crítico. O livro aponta repetidamente falhas da sociedade, superficialidade e ignorância das pessoas, além de falhas do sistema. Esses temas tendem a atrair leitores, pois muitos conseguem se identificar com eles.