Sobre

Quando deixei meu país natal, a República Tcheca, há quinze anos, eu queria conquistar algo, embora não tivesse a menor ideia do que isso seria. Mas havia mais de um motivo para eu ter ido embora naquela época.
Comecei na Inglaterra, em Birmingham, no McDonald’s, como “crew member” — ou seja, virando hambúrgueres numa chapa fedorenta. Não levou nem um mês para eu odiar aquilo tanto quanto o trabalho em fábrica. Mesmo assim, por algum milagre, aguentei quase dois anos.
Depois tentei a vida como garçom no Chipre. Em poucos meses, passei por vários restaurantes. Só não fui demitido de um — então, talvez para não quebrar o padrão, resolvi sair por conta própria. Eu era o pior garçom do mundo. Pelo menos, ao contrário da Inglaterra, no Chipre fazia bom tempo.
No ano seguinte, fui parar em Malta. Acabei dispensado de mais um restaurante, o que marcou o fim definitivo da minha carreira na hospitalidade. Finalmente tive coragem de me dedicar ao meu ofício — sou marceneiro de formação. Gostei muito do trabalho e, de certa forma, realizei um sonho.
Mas, depois de um tempo, a ilha começou a ficar pequena demais. Mais de uma vez, tive que fugir de lá para viagens menores ou maiores pela Europa. Ainda assim, comecei a me entediar e, quando visitei o Marrocos, ficou claro para mim que, depois de três anos em Malta, a Europa já era passado.
Vieram então a Rússia, depois as Filipinas. Voltei à Rússia e quase fiquei por lá. Mas a vontade de ver sempre mais me levou até o Sudeste Asiático e a Austrália.
Nos países onde permaneci por mais tempo, geralmente trabalhei como voluntário — como marceneiro ou, algumas vezes, professor de inglês. Já havia algum tempo que eu também me dedicava à escrita. Mas o desejo de escrever livros era algo que eu escondia até de mim mesmo.
Quando voltei “para casa” completamente sem dinheiro e quase morto, vindo da Índia, tentei me sustentar como professor de inglês. Aguentei seis meses. Assim que foi possível, em meio aos tempos difíceis do início de 2021, parti para a jornada da minha vida, que começou no México.
A vida na selva era boa e cheia de aventuras, sem falar nas pessoas. Mas o dinheiro voltou a acabar. Então fui tentar me salvar nos Estados Unidos. Na primeira vez deu certo. Na segunda, em Los Angeles, me colocaram de volta em um avião para a Costa Rica, o que acabou resultando em uma estadia de dois anos — uma espécie de exílio na Nicarágua, onde finalmente realizei outro sonho: construí uma casa na árvore.
Mas viver como voluntário não dava para sempre. Por puro desespero, me arrisquei a ir para El Salvador com a perspectiva de ganhar cem dólares por semana. Quase morri lá. Graças a Deus, depois de uma longa espera, meu visto de trabalho para o Canadá foi aprovado. Sobrevivi.
Em Toronto, a vida no começo era boa. Mas, a cada dia, ficava mais monótona. Eu basicamente ia do trabalho para casa e de casa para o trabalho. E, quando depois de dois anos percebi que não me tornaria o “Superman” capaz de satisfazer as exigências da imigração canadense, decidi realizar mais um sonho.
Tudo começou muitos anos antes. Vi um vídeo de um show do Natiruts — Acústico no Rio de Janeiro. Que língua era aquela? Nunca tinha ouvido nada mais bonito. Só sentia paixão. E aquela música, aquele lugar, a paisagem da cidade ao fundo… algo me tocou.
Quando se fala em “Brasil” no meu país, muita gente pensa imediatamente no Rio de Janeiro, no Cristo Redentor, no carnaval — e, com isso, em sorrisos, música e dança, uma espécie de calor constante que desperta a vontade de viver. Ou, pelo menos, era assim que eu imaginava.
Muitas vezes, aquilo que mais amamos é também o que mais tememos. Embora por muitos anos eu soubesse que gostaria de visitar o Brasil um dia, a vida sempre me levava em outra direção. Felizmente, quase imediatamente após chegar a Toronto, comecei, do nada, a aprender português brasileiro. Seis meses depois, eu chorava aos pés do Cristo Redentor.
Como eu já sabia que no Canadá não daria certo, e minha vida lá não valia grande coisa, não havia dúvida sobre para onde meus próximos passos me levariam. E ainda havia mais um sonho a realizar…
Finalmente, em fevereiro de 2025, voltei ao Brasil. Em março, comprei minha primeira moto, no Rio de Janeiro, uma Royal Enfield Hunter 350. Começou uma nova jornada, a mais difícil de todas — a jornada em busca da liberdade. Mas, quanto mais tempo eu passava nessa jornada, mais difícil parecia voltar à “vida normal”. E o Brasil continua me dando uma razão para não voltar. O Brasil é o primeiro lugar no mundo onde posso andar na rua sem me sentir sozinho. Talvez eu finalmente tenha encontrado meu lar.
Depois de percorrer vinte mil quilômetros, decidi me estabelecer na cidade de Maceió, onde continuo escrevendo meu segundo livro e produzindo mais conteúdo para este site. Aqui, querido leitor, você encontrará textos sobre pessoas e lugares, sejam totalmente fictícios ou reais. Também escrevo resenhas de livros e compartilho outras reflexões da minha mente.
Se tiver qualquer comentário, sugestão ou pedido, você pode entrar em contato comigo pelo e-mail abaixo.
Sou Daniel Harnol.
Obrigado pela leitura.